
E o dia cansou de ser dia.
Levanto a cabeça de burocráticos papéis.
O avião corta
-- como tiro lento --
as nuvens.
Raios cansados do amarelado astro,
em tangente à superfície terrestre,
espalhando-se em refração dispersa.
Deixam luminosos e vivos
edifícios e suas paredes.
Moldam um amarelo cobre
em tons diversos de laranja e vermelho.
Variações de um mesmo tom sobre fundo azul.
O vento contorna prédios
como arrogando impropérios
Sobre os vidros semi-opacos da minha janela,
o amarelo arrebenta como diminuto cogumelo atômico.
Indeciso entre tempestade de cores ou leve sonata,
o violeta disputa com cinza de chumbo
a lona última da atmosfera.

Trovões e buzinas, raios e gás néon.
Lentas gotas frias despertam o meu braço
dos papéis, argumentos e números.
A conversa se confunde
com a algazarra de começo de chuva.
Urbana chuva ácida,
que molha e despenca o orgasmo das cores
já desfeito em preto sombrio
que reencontro diluído e disperso
na poça que piso na rua.
