Monday, September 05, 2005

Mark-Ex

Não sei muito bem
como tudo começou.

Já há muito não mais a encontrara
em nenhuma autovia abandonada ou luzidia.

Sei apenas que era tudo muito,
muito surpreendente.

Devagar como monstro.
ou rápido como trem magnético.

Sei talvez
que a abertura do terceiro olho
não era completa.

Quem sabe talvez,
o que se escondia inóspito,
como Solaris enraivecido
atrás da tela da testa,
da fronte dos seus ossos.




Eu a encontrara
pairando serena
com seu estático e ágil
cavalo de asas metálicas cor de chumbo

Seu incompreensível olhar de abóbora,
seus enormes olhos cor de laranja,
com um gosto amargo na ponta da língua
e um cheiro de pimenta-do-reino
em suas orelhas pontiagudas.

E como desprendia uivos imensos,
estridentes e dolorosos aos ouvidos.

De seus sons incompreensíveis,
formei seu nome: Mark-Ex.

Quantas vezes,
muito tarde, me convidava,
me arrastava,
me levava até uma clareia,
um mato de árvores cruas sem folhas.

E ali nós amávamos,
esquecidos de tudo,
noites e dias contínuos
largados e esquecidos do mundo.

Um mundo devastado,
perdido e alucinado
em explosões neutrônicas,
espasmos randômicos.

Mas, não,
eu apenas queria saber
de seus seios lustrosos, sedosos,
que soltavam um néctar de prata,
como diminutas galáxias locais.

E sei apenas que ela me mordia
com mandíbulas cortantes
(ainda sinto as pregas das marcas
de seus dentes em minhas costelas):
me sugava todo com volúpia e desespero.

Depois recolhia
seus grandes olhos tristes
e divagava equações hiperbólicas,
isósceles astrais,
parâmetros estrelares heterodoxos.








Mas, gostei, foi quando,
exauridos e estirados,
saturados de todo contacto físico,
explorados todos os limites
e recantos dos corpos
todas suas minúsculas escamas macias
(e ainda me recordo
da estranheza do meu corpo colado ao seu)
entramos em sua nave magenta,
- esfera achatada nos pólos -
e travamos lentamente
a abóbada por dentro
e acionada por inaudíveis motores
que escapam até a compreensão dos insólitos
movimentos quânticos.

Arremessados
com força e tremores
para além de todo ponto de fuga,
além da relatividade do espaço/tempo,
deixamos para baixo e para trás,
talvez para sempre,
a pequena esfera Terra.

E em algum astro
fora de registro
e de qualquer ordenada de sideral mapa
de quaisquer astrônomos,
nos reencontramos
a divagar devagar
os labirintos de todos os limites
e as reentrâncias de todas as dimensões.





















E ela se chamava Mark-Ex.

E ela nunca mais me observou
com seus olhos acres/ocres
cor de cósmica laranja.
All things, persons and spirits flow in the afternoon.
A sunshine’ray burns plash’s water
Espace dilates time!
It dissolves, liquifies abcisses
and ordenades.

















And, between the contingent
and the transcendent,
I try to trace
a simple line,
perhaps a tangent.
Um cavalo marinho
veludo de bronze
boca de sal vermelho
me agarrou pelo braço
puxou pelos meus cabelos.

E,
para meu espanto,
retirou os meus freios
desatou os seus arreios
me abrindo a dança do seu corpo,
me arrastando por águas escuras assustadas
no meio de musgos de surpresa.



E,
com seus olhos de fortaleza,
trançou algas ameaçadoras
nos dedos dos meus pés,
me deixando sem saber
se a presença macia
de sua crina
ao longo da minha pele
era ou não fugidia.




Este cavalo não está mais / está ainda aqui.



Roço cada saliência
das tuas reentrâncias!

Rasgo meu corpo
contra seu dorso:
dor e gozo!

Sunday, September 04, 2005








Entre o contingente

e o transcendente,

tento (em vão?)

uma tangente!

Thursday, September 01, 2005

Tudo passa.
Como passam
as palavras escritas
na areia do teu passo.
















Tudo fica.
Como ficam os rochedos
que caem
a machucar
o limite
entre terra e mar.

Saturday, March 05, 2005




Singulares paradoxos:
premissas, mediações e finais
heterodoxos.


Redisponho
ordem, seqüência e conexão
de dendritos e neurônios.

Thursday, January 06, 2005





E o dia cansou de ser dia.
Levanto a cabeça de burocráticos papéis.

O avião corta
-- como tiro lento --
as nuvens.

Raios cansados do amarelado astro,
em tangente à superfície terrestre,
espalhando-se em refração dispersa.
Deixam luminosos e vivos
edifícios e suas paredes.
Moldam um amarelo cobre
em tons diversos de laranja e vermelho.
Variações de um mesmo tom sobre fundo azul.

O vento contorna prédios
como arrogando impropérios

Sobre os vidros semi-opacos da minha janela,
o amarelo arrebenta como diminuto cogumelo atômico.

Indeciso entre tempestade de cores ou leve sonata,
o violeta disputa com cinza de chumbo
a lona última da atmosfera.




Trovões e buzinas, raios e gás néon.
Lentas gotas frias despertam o meu braço
dos papéis, argumentos e números.



A conversa se confunde
com a algazarra de começo de chuva.

Urbana chuva ácida,
que molha e despenca o orgasmo das cores
já desfeito em preto sombrio
que reencontro diluído e disperso
na poça que piso na rua.

Friday, September 24, 2004


Estrias de nuvens,

a lua:

branco holofote!

Monday, September 06, 2004

Conheci teu corpo
vasto, devasso.
Cada nicho
cravado na rocha!