Tuesday, March 05, 1996

RACONTO POR RAMONA

“Ramona, come closer
Shut softly your watery eyes
I cannot explain that in lines
but I want under
the strength of your skin”,
Bob Dylan









E eles, azuis,
avançaram num terminal de sábado
e rápida e sincronizadamente ocuparam
todos os edifícios centrais
e dispersaram seus grandes carros
com suas rodas lagartixas pelas grandes avenidas
e fortificaram de obuses
cada montanha e colina que cercava a cidade
e passaram, sempre em duplas ou em quádruplas,
a controlar cada esquina movimentada
e cada portão dos grandes muros
que expurgavam vapores corrosivos
aos pêlos das narinas.

E é certo que crispávamos nossos dentes
e censurávamos silenciosamente
os que de susto e pânico se amorteciam de inércia,
esperando talvez que
as coisas passassem como finda
todo e qualquer inverno,
como catástrofe atmosférica
caída de repente e impelida como mera circunstância.

E é certo que já não se escutava
as mesmas batucadas
nos arredores da cidade
no escurecer do fim dos dias de jornada
e já não se entornava
cachaça nos bares
com a mesma veemência de outros tempos,
ainda que nenhuma lei escrita ou falada impedisse,
ainda que os bares prosseguissem
funcionando aparentemente
com a mesma regularidade
e ainda que aquelas duplas circulassem
reservadamente à distância.

E fora naquele tempo que aprendêramos
sobre o nervo da cidade
e percebêramos que era também o nervo da morte dos
que nos ocuparam.
E nos surpreendêramos que lá tudo se gerasse
e tudo, por último, se decidisse.
E era de lá que se paria hora a hora, dia a dia,
ressalvadas poucas horas curtas do dia
e um dia a cada sete,
todos os utensílios
e a própria vida do lado de fora dos muros
e que para isso se expelia
aqueles vapores pouco tragáveis aos ouvidos.


E naquele tempo de dentes trincados
fora-nos encarregada
a comunicação entre as partes
que mantivéssemos a todos
atentos à tralha que forjávamos
para cada passo e carro dos azuis.

E é certo que tivera naqueles tempos,
poucos minutos para as árvores,
poucas cervejas para as tardes
e poucas noites para as paixões prolongadas.

E é certo
que ainda que não nos tivéssemos
por completo repostos
dos sonhos pesados
nos olhos ainda mal abertos,
era estritamente necessário
ir logo sustentar
cada flanco das diversas frentes
que se abriam cada vez mais rapidamente
por todas as ruas e bairros da cidade.

E ainda é certo que chegara em casa
após três dias de apartes
(pois muito era naquele tempo o avanço dos azuis
e ainda que travássemos minuto a minuto suas entradas,
era preciso discernir minuciosamente
cada próximo passo)
e a encontrara com seu sorriso assustado,
just like a woman and a little girl.

E enquanto ela me detalhava cada canto
dos combates na ala leste da cidade
(pois era lá seu campo de batalha),
e enquanto ela me recontava todas as costelas amassadas,
e me refazia todos os poros transpirados
(e eu mal tivera o espaço de revê-la
naqueles dias mal atravessados),
e enquanto ela me mordia docemente as ancas e
eu a trançava na penugem de seus grandes lábios,
devagar veio uma soltura
por pernas braços pescoço,
me desprendendo cansado molhado inquieto
em sua serena boca morena.

E inda que me indagasse até que ponto
nos reescrevíamos em cada cerveja da tarde,
até que ponto nos revíamos nas lutas entre colchas e cobertas
e se já não era ela a mesma que eu encontrava no fim do dia
dissecada dos ossos da batalha,
até que ponto a remexia em seu desenho infinito
à minha frente,
e enquanto eu a velejava
em seus grandes barcos negros de densas sobrancelhas,
ainda tivera o espaço de minutos
para escutar,

com a carga de todos os pulmões em aberto,
um rumor e um ritmo,
constante e contínua
batida de martelo,
em cada barraco do colo da América.

E sei apenas que eram vermelhos
todos aqueles martelos e ruídos.

E sei apenas que era branca e infinita
a agonia no lençol que não se prendia
nas bordas daquela madrugada serena e latina.

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